Os mendigos, o tesouro e a alma humana

Eram dois amigos, mendigos, que viviam numa terra distante, dependendo sempre da caridade de outros para sobreviver. Aprenderam a valorizar a importância da amizade e por causa dela dividiam fielmente o pouco que tinham. Um único cobertor os cobria nas noites frias, um colchão fino apenas, onde dormiam um para cada lado. Quando ganhavam um pão, ele era partido e, se fosse dinheiro, o que comprasse era sempre para os dois. Na pobreza, seu maior tesouro era a amizade.

Andando certa manhã por uma trilha próxima a uma cidade um deles tropeçou. Olhando no chão viram um pedaço de madeira. Escavando descobriram um velho baú, cheio de moedas de ouro. A vida deu uma virada e tanto. Em um tropeção, ficaram ricos, muito ricos. Passada a euforia, começaram a pensar no que fazer. A primeira coisa certamente era comprar uma comida de rei para aplacar aquela fome de muito tempo. Começaram a discutir quem iria até a cidade atrás da comida e quem ficaria com o tesouro. A discussão foi feia, pois ninguém queria ir. Na verdade, nenhum queria deixar o tesouro com o outro. A desconfiança de que um poderia fugir levando todo o ouro assustava a ambos. Não se confiavam mais.

Depois de muito discutir, finalmente um deles resolveu ir até a cidade. O outro que ficou sozinho estava agora sendo assaltado por pensamentos estranhos. Porque dividir o ouro se poderia ficar muito mais rico sozinho? Tomado por uma coragem de dar medo armou-se com uma faca e decidiu esperar o amigo voltar para matá-lo. E foi o que aconteceu. Quando o outro voltou, abaixou-se de costas para colocar a comida no chão, dando a oportunidade para o amigo tirar-lhe a vida. O corpo foi escondido no buraco de onde se tirou o baú.

Enterrar dá fome. Depois da façanha, o rico mendigo pegou a comida que o falecido trouxe e comeu como um rei. Não sobrou nada. Esqueceu-se, porém, que os reis antes de comer dão um pouco da comida para um servo testar se não tem veneno. Erro fatal. Estava envenenada por quem trouxe, pois ele tinha tido os mesmos pensamentos.  Agora os dois estavam mortos e o tesouro não lhes faria a menor diferença.

É como disse Jesus: “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. Há riqueza na pobreza e pobreza na riqueza. Tudo depende de onde está o nosso coração.

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