Comecei o ministério em janeiro de 1990, na cidade de Central de Minas. Naquela época era recém-casado, com 21 anos, e, como quase todo obreiro em início de ministério, também era muito soberbo. No esplendor da minha formação teológica, pensava ter resposta para todas as perguntas e solução para todos os problemas. Eu era o herói que estava chegando para afugentar toda uma velha estrutura que, em minha opinião, não surtia mais nenhum efeito. Tinha toda a motivação necessária para levar a cabo minhas ideias e convicções. Era um pobre coitado, embora não soubesse.
Confundia minha autossuficiência com firmeza de fé, minha sabedoria pessoal com a sabedoria que deve vir de Deus. O que eu não sabia também é que Deus tinha muita coisa para me ensinar. E o ensino do Senhor começaria com quebrantamento geral, pois não dava para Ele construir nada em cima do que eu mesmo já tinha edificado no meu coração. E a quebradeira do Senhor começou onde menos podia imaginar: numa simples visita pastoral.
Num domingo à tarde, eu e o presbítero Felisberto Gonzaga fomos visitar a Dona Maria no distrito de Floresta. O Felisberto já tinha mais de 80 anos, mas possuía uma vitalidade impressionante e um testemunho marcante. Era apaixonado e comprometido com Deus e com aqueles crentes simples daquele lugar. O distrito de Floresta era, na realidade, um conjunto de algumas casas em volta de uma praça. Muitas dessas casas eram construídas morro acima, de madeira coberta com telha eternit, verdadeiras estufas com piso de chão batido. O acesso a estas casas era por degraus cavados direto nos barrancos, que o Felisberto, no auge dos 80 anos, subia rapidinho, enquanto eu penava, suava e lastimava as dificuldades que estava passando para chegar naquele lugar. A dona Maria morava lá.
Depois de todo o esforço, chegamos ao seu barraco. A irmã nos recebeu com muita alegria, pois era o primeiro pastor em muito tempo que a visitava. Precisei abaixar-me para entrar, pois a porta era pequena, embora proporcional ao tamanho do lugar. Dona Maria já era bastante idosa, baixinha, mas muito falante. Não sabia ler. Mandou que nos assentássemos num banquinho de madeira, eu e o Felisberto. Banquinho velho e bambo. Ainda bem que eu não era muito pesado e o Felisberto era magrinho.
A conversa seguia animada, e Dona Maria contava muitas histórias, todas cheias de experiências com Deus. Achava aquilo muito interessante: como é que uma mulher tão simples tinha tanta coisa para contar sobre Deus, se eu, que era tão esclarecido, não tinha? Será que eram experiências reais com o Senhor, ou apenas variações de sua cabeça? Por certo eram experiências de vida com Ele, pois podia notar o brilho da alegria de Deus em seu rosto.
Chegando a hora de orarmos, ela pediu oração pelo seu filho “Zé”, que gostava de beber umas cachacinhas. Aquela mãe pediu chorando pelo filho. Li a Bíblia e orei. Ela também começou a orar e, na sua fala, intercedeu pela vizinha dos fundos, que tinha o mesmo nome dela: Maria. Ela orou assim:
“Senhor, abençoa a Maria. Aquela que é minha vizinha de fundo. Aquela que mora sozinha. Aquela, Senhor, com quem conversei hoje à tarde. Aquela a quem dei um mamão do meu pé e, quando fui arrancar do tronco, fez ‘tec’. Salva ela, Senhor.”
Ficou claro que a irmã Maria não queria que Deus errasse a bênção nem o endereço da vizinha. Novamente, seus olhos estavam marejados. E eu pensava comigo: “Que fé diferente! Ela sofre por pessoas que eu, até então, não tinha dado a menor importância.”
Terminando a devocional, fizemos menção de ir embora. Ela disse que não podíamos sair sem comer nada na casa dela. Mas uma senhora tão pobre, o que poderia oferecer? Ela desembrulhou dois pães de sal. Era tudo o que possuía e, na sua simplicidade, deixou escapar que era a janta dela e do filho “Zé”. Guardou o pão do “Zé” e partiu o dela em três, oferecendo-nos. Felisberto recusou, e eu também.
“Não podemos aceitar”, disse eu, “é a sua janta.”
Foi quando ela respondeu:
“Se o senhor não comer do meu pão, não tem parte comigo.”
Agora eu estava de olhos marejados. Aquele pão era da comunhão: pão partido por amor de nós. Maria ensinou-me preciosas lições: humildade, amor fraternal, compromisso. Deus começou a quebrar barreiras em meu coração.
Já não sou mais tão prepotente, nem tão autoconfiante. Tenho aprendido a depender de Deus e confiar nele quanto ao passado, presente e futuro. E isso porque Ele tem colocado muitos “Felisbertos” e muitas “Marias” no meu caminho. Louvado seja o meu Senhor!
“Ele vela pelo simples. Achava-me prostrado e Ele me salvou.” (Salmo 116:6)